
Pouco a pouco, acreditei estar a salvo. Desde o fiasco com os russos, nunca mais pus os olhos no meu inimigo roedor. Num desaparecimento tão surpreendente como a sua vinda, esfumou-se sem explicação. Teria fugido? Ou estaria morto por razões desconhecidas? O veneno fez finalmente efeito? Foi atropelado? A Manuela Moura Guedes sorriu-lhe?
Nada soube, acabando por acreditar que o sumiço era definitivo. O meu subconsciente, porém, continuou a trair-me. Um incómodo latente fazia-me ver sombras em passagem rápida junto ao chão, ouvir ruídos estranhos, permanecer inquieto em casa. Até que no Verão passado o meu nemésis regressou.
Deitado no banho de imersão, fechei os olhos e abandonei-me à serenidade. Um pequeno guincho, sussurrado mas alto o suficiente para ressuscitar pesadelos, despertou-me. Olhei para o lado e, no rebordo da banheira, lá estava ele, toalhita branca ao pescoço e cauda a abanar com desdém. Seria o inimigo ancestral ou um descendente para recriar a maldição? Não sabia, mas o estilo era idêntico: o sorriso trocista, a forma como dançava o can-can em frente à TV, todo um arsenal de provocações baratas para me destruir os nervos.
Após quatro anos de enganadora tranquilidade, as trincheiras tinham voltado ao meu dia-a-dia. Sitiado no subvertido descanso do lar, vivia em sobressalto caseiro. Uma vez, com o calor no seu pico estival, resolvi repousar no sofá da sala. Nu. Infelizmente, ele também lá estava. Assustámo-nos ambos, mas o deslize supersónico no meu baixo ventre foi certamente mais traumatizante para mim.
A dada altura, submeteu-me ao martírio psicológico extremo, com a tortura dos sacos plásticos. Sempre que ia para o computador trabalhar no meu plano de resolução do aquecimento global (ou ver lutas na lama na net, a minha memória é difusa), ouvia sacos plásticos a serem mexidos. Por mais rápido que fosse à cozinha, quando lá chegava reinava o silêncio absoluto.
Ao fim de várias semanas, apanhei-o em falso - tinha ficado preso dentro do balde do lixo. Num ápice, fez-se luz. O barulho do saco plástico vinha do caixote do lixo, que ele transformara em restaurante privado. Aos saltos desesperados para sair de lá, nem reparava no meu olhar de triunfo, antecipando a vingança mais cruel. De súbito, sem que eu tivesse tempo de reagir, inventou um salto à Jackie Chan, projectando-se contra as paredes do balde (que tinha 15 vezes a sua altura). Saiu de lá com dois mortais empranchados à rectaguarda e uma aterragem sem mácula. O júri da República Checa deu-lhe um 10 perfeito, eu fui para o quarto chuchar no dedo em posição fetal.